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Blog EntrySep 27, '09 5:56 PM
for everyone
não sei se o que me falta é luz
ou paisagem
talvez um rosto de criança
que me levasse até à morte
sem para trás e sem vergonha.

talvez seja a ausência da música no modo como nos tocamos
a parecer o tempo que morre
e sopra já sobre o coração.

sento-me em frente ao espelho
o meu rosto olha-me de fora para dentro
até ser ele só que me pensa

uma aquietada modelo
que todos vissem
cénica e nua a servir a arte

um pouco assim como as bruxas
e também muitas putas
que depois de retratadas
davam santas de altar e matriz.

eu também dispo e visto,
e sei usar os gestos da civilização ocidental
para sair à rua e dizer que sim
mas desconheço a beatificação,
aquele modo antigo e seguro de caminhar
feito de recato e pai nosso

aquele mesmo modo
de quem sabia que enfim nos perdoa
às vezes o tempo
das horas que um ao outro emprestamos
para sermos impuros
e uma outra vez
fugirmos à morte.

Lobo Antunes: What´s the story of the Odyssy?I´m coming home later.



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Blog EntryNov 8, '08 12:33 PM
for everyone

"Que se saiba há um único homem que se põe de pernas para o ar como as personagens de Chagall. Por exemplo: está muito bem a comer, surge um rafeiro e ei-lo de sapatos mais altos do que a toalha («Detesto estes cabrões, detesto estes cabrões, detesto estes cabrões») a navegar no azeite do bacalhau como os violinistas do pintor à deriva na tela. Por exemplo: a gente sobe à noite os degraus do elevador da Bica, iluminados de lado de taberna em taberna, eu a cambalear de cansaço nas escadas e ele a flutuar à minha volta como um anjo de óculos, conversando comigo de Antonioni e Godard, primos distantes, com relógios e amantes abraçados em torno do blusão. E há os bares, os cabisbaixos bares tristes de Lisboa, tumulares e desesperados, que o gás ilumina de pavios de azeite amarelo com duas pedras de gelo, debaixo da ponta acesa do cigarro americano, em homenagem a Hemingway e a Fitzgerald. E os restantes flibusteiros connosco. Artur Semedo, a servir atrás do bigode fino a sua ironia de Capitão Blood benfiquista; Dinis Machado, sempre a apear-se de um comboio de inocência perpétua, de sapatinho elegante e sobretudo à George Raft; e eu, o último e mais espantado da troupe, calado, de queixo numa água das pedras vazia. Quando anoitece, José Cardoso Pires começa a ganhar consistência no interior da roupa, íntimo de barmen e do labirinto estranho em que Lisboa se transforma, balizada de chafarizes e polícias que perderam, desde há séculos, o costume de sorrir. As árvores pingam trevas em cima de nós, os prédios aproximam-se, como as ovelhas, para adormecerem, encostando umas às outras os quadris das varandas. George Raft abotoa melhor o sobretudo. O Capitão Blood, de olho aceso para recordações distantes, ajusta-se na luva preta e no emblema do Colégio Militar onde moeu os miolos dos tenentes e fez coçar de aflição os sovacos dos maiores. E eu alinho um segundo gargalo de água das pedras à ilharga do primeiro, enquanto José Cardoso Pires levanta as duas mãos para se lançar no espaço rarefeito de fumo a explicar Jack Nicholson. Às duas da manhã, quando as rugas, piedosamente apagadas pela ausência de sol, fazem de nós um grupo de adolescentes à espera da primeira comunhão e de uma nova garrafa, e os empregados dos bares circulam entre as mesas com a diligência das senhoras que procedem à recolha das esmolas no ofertório das missas, movidos pelo afã cristão da cirrose, saímos para o ressonar a estores soltos dos bairros de Lisboa, o Dinis ocultando o revólver no sobretudo impressionante, o Artur, corsário do celulóide, a ferver de ideias de tal forma que o bigode lhe borbulha, eu a arrotar a água das pedras nas esquinas, que é a minha forma canina de erguer a perna e urinar, e o Zé, granito sem peso, à procura do Dupont nos bolsos para nos converter melhor a um golo do Nenê. E é ele o único de nós que voa, sem peso, por cima das mandíbulas das camionetas do lixo e dos pesadelos dos escriturários, tripulando a nuvem de um Renault branco que se some, a tremer, sobre os telhados, rumo às folhas de papel A4 que são os lençõis em que por fim nos deitamos, a rechear de ossos o pijama e de palavras adiadas os rectângulos das páginas. Hei-de informar-me se o Zé não dorme sem tocar nelas, ensanduichado pelo diálogo de duas personagens, apesar do lastro do mar da Caparica por dentro da cabeça e das folhas das  árvores de São João de Brito ao comprido do sangue. E acorda no dia seguinte estremunhado, rodeado de gaivotas, por cima do hálito de baunilha do vendedor de gelados da Praia da Rainha. O hóspede de Job, meu Amigo."

  in Cardoso Pires por Cardoso Pires, entrev. de Artur Portela, 1ª edição, Publicações D. Quixote, 1991, 124 p., pp. 101-103


VideoNov 8, '08 12:20 PM
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truques de ilusionismo de josé cardoso pires, para alexandra alpha, apresentados por nelson de matos.



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Blog EntryMay 23, '08 11:38 AM
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Intervalo de Vida

Inútil sol inútil chuva inútil céu
enquanto não imóveis como as árvores
abertas todas elas para tudo
feitas em cada folha tudo para tudo
atravessarmos rígidos os meses

Inútil é o sol feito relógio de pobres
o sol afinal a única
pessoa importante que passa na rua
E as nossas ideias estas ideias latinas que precisam
de ombros entre elas entre as árvores fazendo
concorrência às coisas misturando-se e distinguindo-se
ocupando um espaço tão real como aquelas

E as crianças deformando o espaço indo por dentro
enchendo a rua sendo novas ruas
deixando-nos depois como únicos gestos
que ainda perduram palavras nascidas nos lábios delas
mortas mais de tarde nas costas de quem passámos

Inútil citadina chuva
pretexto para os nossos guarda-chuvas
chuva que a todos nos molha e nos confunde
e nos iguala companheira chuva
E eu vou por esta chuva acima até à minha infância
debaixo dos meus pés o chão é outra vez o mesmo
a erva cresce. Entre gestos polidos páginas
de livros no meio desta vida exacta e medida
nesta cidade assim mesmo tal e qual
a erva cresce e tem aroma e leva-me
por esse aroma até à erva vou de erva para erva
Rasgam-se em mim adros de aldeia
há plátanos abrindo sobre danças de crianças

Junto da janela passando na rua posso
com toda a propriedade dizer que
conheço infinitamente melhor as montanhas junto do mar
onde tem ninho o pato selvagem
e tudo lembra ainda um passado de águas
que a forma sempre mudável da minha unha
essa unha roída pelos grandes problemas
essa unha da passagem das estações e dos dias
e dos carros de bois antes e depois dos dias

Inútil céu que o sol todos os dias
deixará levará como perdido manto
esquecido sobre as nossas cabeças

A primeira infância passou mas agora ou logo
deus renova todas as coisas
E um dia haverá barcos e seremos livres

Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates, p. 101, Presença

Blog EntryApr 27, '08 9:28 AM
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às vezes é o coração, fica redondo, apetece-lhe outras formas, outros desígnios menos diastólicos.
quem pode, perdoa-lhe e vai suspirando pelas escadas como uma virgem oitocentista.

outras é só a leitura do jornal daquele dia, ou o amigo que ia telefonar e não telefonou,
mas quase sempre é uma espécie de sinusite sináptica, um congestionamento das memórias, uma confusão de espelhos, que aos entendidos poderia sugerir uma certa promiscuidade de sujeito e objecto.

afinal, nada é fácil como ver as paisagens e passar, da mesma maneira que fazem os comboios. os comboios e as suas cartografias neuronais, a horária paragem em todas as estações.

a próxima é terminal.
agora é a vez do corpo.


Blog EntryApr 13, '08 9:18 AM
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Kundera indigna-se com o esquecimento a que foi votada calipso, a deusa que viveu com ulisses sete anos. Considera-a injustiçada, ante a exaltação de penélope.

Quanto a mim, penélope e +itaca são uma só e mesma substância, a ilha-mulher, a terra-mãe. O regresso a ítaca é, assim, um regresso ao útero. Só algo assim explica a figura da necessidade no regresso de ulisses.

O que poderia haver de tão obsidiante que nem à companhia dos deuses se sobrepusesse?
A fé de ulisses é uma fé co-movente. É a fé da natalidade.


Blog EntryApr 13, '08 8:46 AM
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rodrigo leão ao piano, alexandra monteiro ao canapé.
ele agudo, eu grave, com muito dó.


Blog EntryApr 12, '08 3:28 PM
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Abraham Moles  define comunicação "como o processo de fazer participar um indivíduo, um grupo de indivíduos ou um organismo, situados numa dada época e lugar, nas experiências de outro, utilizando elementos comuns".


( fotografia de cartier-bresson)

 


Blog EntryApr 10, '08 6:36 PM
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alexandra monteiro, pecaminosa, culpada de infracções várias a todos os códigos penais, existenciais, retóricos e literários, tem preferido sempre os artefactos aos factos, os tributos às tributações.

míope por convicção, caótica por atribuição divina, alexandra monteiro, herdeira do neo-platonismo e de uma edição rara de o conde de monte-cristo, alterna a literatura do século XVIII com a cosmovisão televisiva, wittgenstein com o catálogo do ikea.

alexandra será morta, mas não rainha, muito menos mísera ou mesquinha. alexandra monteiro prefere o bom- gosto ao bom- senso e padece de graves hesitações relativamente ao uso do hífen.

conhece-se-lhe o gosto por mancebos, remingtons e camilo castelo branco. acredita na transmigração da alma e em serviços de chá para 12. a sua maior destreza consiste em pulular entre escribas, escreventes e escritores.

alexandra monteiro é autora de tratados de estética para guindastes.

estudou o ciclo de calvin e é conhecedora dos processos fotossintéticos. aprendeu ponto cruz, crochet e boas-maneiras. cita montaigne com o indicador em riste e nunca revelou problemas de insónia ou exsónia.

alexandra monteiro teve orgias de latim e foi amante de muitos homens, e até mulheres, constantes de variados catálogos bibliográficos.

alexandra monteiro é uma obra aberta, um estado de sítio. alexandra monteiro é uma anti-jocasta, nunca um anti-édipo.

atípica, atópica e sem clube, religião ou filosofia, alexandra monteiro voga por reuniões tupperware, o trascendentalismo, as consolações filosóficas e gastronómicas.

conta prever e prevenir o dia da sua morte.


Blog EntryMar 29, '08 5:50 PM
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aos factos tenho, quase sempre, preferido os artefactos. 

Blog EntryMar 28, '08 12:19 PM
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o coração dispara, bang.é o que me dizem às vezes. as pessoas falam por metáforas. falam assim porque a metáfora é um intermediário, a maneira de apontarmos muito lá para cima, enquanto ficamos sempre no mesmo lugar. uma metáfora é uma maneira de dizer o mar quando dizemos só azul. a metáfora é a tradução de que somos sempre a sombra de outra sombra.

a metáfora é isso, uma grande folha de papel que amachucámos sem deitar nunca ao lixo, e o amachucar é qque é a mensagem, nunca a folha.

Blog EntryMar 28, '08 11:51 AM
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estar a meio do dia e não ter noção das horas é uma vitória sobre o cosmos.
chove e, portanto, eu deveria estar a padecer de melancolia aconchegada.
tenho mesmo todos os apetrechos que me habilitam ao mais perfeito verlinianismo. mas faltam-me clepsidras para ter a certeza que a cada fôlego meu sucede um outro, e que isso é o tempo que passa.
.
é o último dia para reformular todos os hábitos existenciais, pagar a usura do ócio, ver perfeitamente claro por entre a névoa e os estrangeiros.
estou à espera do regresso, serei outra vez ulisses, pisarei todas as ítacas, sem saber de qual parti.


Blog EntryMar 28, '08 10:11 AM
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estou no meio do meu dia a fazer silêncio. um silêncio deliberado, de boca tapada e bolsos cosidos por dentro.
é um silêncio totalmente ineficaz e com uma elevada densidade populacional. parece que conspiro e, sim, sou uma criminosa sem vítimas.

não  pensem que é mudez, é silêncio: estou-me a despir da sintaxe, mas não há erotismo.
o meu silêncio é desbotado e imóvel como a fotografia de um grupo de que já não sabemos os nomes. 

Blog EntryMar 28, '08 9:58 AM
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a peça «nenhures», da autoria de Daniel Jonas, está em cena no Teatro Carlos Alberto até 6 de Abril. o texto convoca polifonicamente o imaginário caleidoscópico da poesia de Daniel Jonas no seu diálogo com a tradição poética, metamorfoses linguísticas e jogos de palavras.
a ideia dramática da peça é percorrida pelas tensões do espaço autoral e teatral e também das personas que o percorrem  como habitantes de um teatro-mundo, palco da vida, que é, afinal, uma utopia, um não-lugar, o nenhures.






EventMar 9, '08 5:06 PM
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Start:     Jun 28, '08 6:00p
End:     Jun 29, '08
Location:     Casa das Artes, Famalicão
rufus wainwright volta a portugal e ao norte, desta vez à casa das artes de famalicão. serão dois concertos nos dias 28 e 29 de junho.
os bilhetes estão à venda a partir de 25 de março.

rejubilemos!


Blog EntryMar 3, '08 5:14 PM
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o ano passado, por causa de um poema de josé tolentino mendonça, plantei frésias. nunca as tinhas visto e nem sentido o cheiro. este ano brotaram. cheiram a chá, como já tinha aprendido aprioristicamente no poema de josé tolentino mendonça.







Frésias


Frésias são flores com cheiro a chá
e ela, aos trinta e sete anos, preferia-as
às flores que se vendem por aí
admitia a beleza mas não o esplendor
porque são tristes as repetições
num instante se tornam saberes
e ela, aos trinta e sete anos,
prezava apenas os segredos que mesmo ditos
permanecem como segredos

(em certas épocas, por alguma porta esquecida
escapava-se, sonâmbula, para o pátio
que dá acesso à mata
e, por vezes, iam buscá-la
gritando o seu nome ou com a ajuda dos cães
já muito longe de casa

tinha por hábito acender fogueiras
de que, depois, se esquecia
e por isso também os aldeões
a temiam)

nunca compreendeu a natureza da vida doméstica
intensa e aflita criança
incapaz de certezas

o que de mais belo soube
sempre o disse, de repente,
a alguém que não conhecia

José Tolentino Mendonça, Baldios, Assírio e Alvim, p.21-22




Blog EntryMar 2, '08 2:14 PM
for everyone
às vezes esqueço-me que estamos os dois aqui.
a voz de todos os outros também fala por nós, quando só o silêncio é suficientemente áspero para te agarrar.
não sei a que viagem nos demos, se teríamos ficado estrangeiros de tanto nos olharmos, ou se foi quando começámos a ler os mapas que nos perdemos. é sabido, a corrupção da aleatoridade indigna os deuses.

parece-me que estás sentado no outro lado da minha vida, nessa outra que vivi e reconto pelos dedos da memória. parece-me que estás sentado e esperas uma grande calamidade.
como uma vestal, arrumei todos os telhados, estudei os fusos horários e as cidades impronunciáveis, mas sempre que chegamos, o mundo esvazia-se.

não sei para onde pode ir um ulisses sem ítaca.



Blog EntryMar 2, '08 1:34 PM
for everyone
mentalmente, somos todos criaturas fotossintéticas. 

Blog EntryFeb 24, '08 7:37 PM
for everyone
a cerimónia dos oscares deve estar a começar. estou indecisa: será este chanel vintage adequado para mim?